A simulação é real

Em meados de 2014, estava eu fazendo minhas peças por aí, quando recebi a ligação de uma amiga, era final do semestre, ela me chamou para um trabalho que não soube explicar muito bem, era mais pra ajudar seu tio que era coordenador de um curso de medicina em uma faculdade no Tatuapé. Ele precisava de atores para realizar as provas dos alunos e como sua sobrinha era atriz, ele pediu para que ela chamasse alguns amigos, a gente só iria descobrir o que era quando chegasse lá, fomos em cinco, que eu me lembre. Ao chegarmos fomos apresentados ao tio, ele explicou o que tínhamos que fazer e demonstrou muito domínio de tudo e de cada etapa do processo. Fizemos. Foi muito, mas muito divertido. Descobri que isso que fizemos foi: Simulação Realística. O tio adorou a equipe, fomos outras vezes, ele dizia que era bem melhor com a gente lá, porque antes quem fazia a função dos atores eram os próprios alunos e acabava que não tinha a mesma seriedade. A partir desse momento, fiz bastante simulação, normalmente era no final de cada semestre e ficava sempre esperando. Uma vez fiz para alunos que já estavam em residência (caso não saiba, residência são os três primeiros anos da vida profissional de um médico recém-formado para então escolher sua especialidade e seguir a vida na profissão... uma explicação bem dentro do meu nível de conhecimento), eram muitos atores, mais de 30, certamente, e tinha alunos do Brasil inteiro! Foi aí que comecei a entender melhor esse negócio de simulação.


Pesquisei sobre e rolava até que bastante, mas a maioria, quase todas, eram feitas pelos próprios alunos e até mesmo pelos professores. Bom, segui minha vida. Final de 2016, minha saudosa professora, diretora e sócia na Inima recebeu um convite de um aluno para fazer simulação onde ele dava aula, ele é médico e professor de medicina, tipo o tio da minha amiga. Ela disse “ok”, depois me ligou desesperada, não sabia explicar o que era e nunca tinha ouvido falar, mas disse que faria. Eu fui ao se encontro e quando ela me viu, soltou um: Fudeu! Eu ri e disse “relaxa... eu sei o que é” (afinal, eu era praticamente um expert, considerando a pouca utilização de atores e eu já tinha feito muitas por 2 anos – aviso: contém ironia). Ela cismava em dizer que deveria ter dito não, até que falei: Isa, difícil é montar espetáculo sem dinheiro, um ano de ensaio, ganhar por bilheteria, fazer 10 atores acreditarem na nossa ideia (naquele ano tínhamos acabado de produzir o espetáculo Romeu e Julieta na Roça). Risos nervosos...


Fomos na reunião, eles precisavam de 6 atores, mas o formato era bem diferente, não era para as provas, era para o ano inteiro, porque a simulação estava na grade curricular do curso, era um experimento, o primeiro no Brasil neste formato. Topamos.


Hoje, somos especializados em Simulação Clínica Realística ou Paciente Simulado ou ainda Paciente Padronizado, todas essas denominações estão na literatura da medicina.


Lembra daquela coisa de chamar uma galera e na hora a gente explica?! Pois bem, profissionalizamos o processo, criamos e implementamos um treinamento específico, temos coordenadores de equipe e só trabalhamos com atores profissionais (aaah preciso explicar isso em outro artigo, foi uma luta). Atualmente temos mais de 600 atores em nosso elenco, atuamos em 10 cidades pelo Brasil e já fizemos mais de 25 mil simulações desde 2017 (só em 2020, na Pandemia, foram 7 mil). A simulação é real e está em expansão, se você é do teatro, esta é uma nova possibilidade de trabalho e você precisa conhecer, entender e se especializar. Já temos outras empresas surgindo e contratando atores. É isso. Prometo escrever mais algumas coisas. 😊 Até!


Deivid Miranda é ator, produtor e diretor na Inima Produções. Não é jornalista e nem sabe escrever, mas como é dono da empresa e ele que faz o site, vai ficar subindo texto no blog.

206 visualizações3 comentários

Posts recentes

Ver tudo

Aviões

ATESTADO